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domingo, 15 de janeiro de 2012

O estranho desiquilíbrio

Naquele dia o mestre de Judô reservou boa fatia do treino para o exterior, desafiando a classe a o acompanhar numa corrida pelos caminhos tortuosos da localidade. Para além do olhar aparvalhado dos indígenas, pouco habituados a ver uma corrida de pijamas, ou de seminaristas, e até houve quem pensasse que de sandokans esotéricos (...), os próprios alunos se dividiam interiormente, entre o achar a experiência lógica e benfazeja e os que não entendiam a loucura delirante do seu líder.
A certa altura, entre tojos, musgos e pedras, o mestre trpeçou e entrou em franco desiquilíbrio. Aproveitou entretanto a oportunidade para executar um exemplar zenpu-ukemi, evitando arronhões, entorses ou maleitas afins. Reparou entretanto que toda a classe o imitou.
Mais à frente o terreno evidenciou-se lamacento e escorregadio. De tal modo que, qual casca de banana, em certo momento o mestre quase que caiu novamente mas, desta feita, conseguiu, embora com grande dificuldade, manter-se em pé. Ao chegarem ao sossego do dôjo os discipulos achavam-se algo inconformados e perplexos... porque ninguém tinha entendido a 2.ª técnica de desiquilíbrio ensaiada pelo mestre. Terão tentado imitá-lo mas sem sucesso... afinal que técnica rara era aquela?...

(isto passou-se nos arredores de Abrantes, com Mestre Correia)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Espírito de Wabi e Sabi no Chá

No dicionário de Jaime Coelho, o autor apresenta a seguinte tradução para Wabi e Sabi:

wabi2, o gosto refinado da simplicidade. Sin. Kanjákú. vd. sabi
sabi2, 1 A pátina. Loc. ~ ga tsuku, Ganhar (ficar com) pátina.
2 O que foi formado (amadurecido/embelezado) pelo tempo. Loc. ~ no aru koe, A voz forte (bem formada). 3 A simplicidade elegante (beleza clássica/amadurecida) «do "haikai" de Bashô». vd. wabi
Como se pode constatar, o próprio autor remete o leitor de um termo para outro, reciprocamente.
Como que podemos dizer que Wabi começa onde termina o Sabi e vice-versa. E esta reciprocidade, integradora, esta dialéctica harmoniosa, de prática e sentimento da serenidade e do contentamento com as coisas simples, é muito típica das artes nipónicas.
Esto gosto pela contemplação das belezas simples é essencial na Arte do Chá e consequentemente no Cha-no-Yu... mas pode igualmente ser observado no Ikebana, nas artes marciais, no Tiro Zen, entre outros.
Para muitas pessoas, enquanto observadores do exterior, o cerimonial do Chá parece relativamente simples de concretizar com perfeição. Uma vez iniciados na prática constatam que, pelo contrário, a perfeição não é nada fácil... e afigura-se até impossível. Questionam, por vezes, se vale a pena continuar, perante a dificuldade ou "falta de jeito"... É então o momento adequado para meditar sobre o que é mais importante nesta arte, nomeadamente wabi, sabi e kokoro/kimochi (sentimento)... o coração (kokoro) deve preceder a técnica (jutsu).

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A harmonia do caminho...

No universo das artes marciais orientais, nomeadamente nipónicas, o praticante depara-se com diversos caminhos, vias, estilos, de onde provêm os vocábulos michi (mitchi, o mesmo que dô, doo, dou... caminho) e kai (escola, estilo).
Podemos simplificar e, num contexto de análise da tensão corporal, considerar essa miríade de caminhos divididos em duas grandes vias: os estilos líquidos (ou internos) que baseiam toda a prática na descontracção, considerando o corpo humano semelhante à água (mizu)... e os estilos sólidos (ou externos) que usam constantemente técnicas e movimentos bastante contraídos, como se a constituição física do oponente (em combate) devesse ser encarada como uma pedra ou pedaço de madeira.
Lao-Tseu, fundador do Taoismo
Como é típico das abordagens dialécticas (perspectiva Yin-Yang), dificilmente encontramos os exemplos puros expostos, sendo que a maior parte das vezes os estilos não são exclusivamente internos ou externos... mas sim compromissos das duas qualidades. Quando denominamos uma escola por externa ou interna referimo-nos assim à preponderância qualitativa desses factores. Estilos há entretanto em que não é muito fácil qualificá-los quanto à tensão-descontracção, à dureza-flexibilidade, respiração forte ou natural, requerendo tal desiderato uma explicação mais detalhada.
Cada praticante escolherá a sua via, o seu modo de se sentir harmonizado com o todo e sobretudo consigo mesmo. Para isso talvez seja conveniente experimentar várias escolas e manter uma mente aberta.

sábado, 2 de abril de 2011

A Renovação do Chá - Ai-Uchi

Como utensílios fundamentais da cerimónia do chá (cha-no-yu) temos a chávena (chawan) e o batedor (chasen)... o barro e o bambu... em peças únicas, que tacteamos, sentimos, manueamos... e nos habituamos a integrar no nosso ser.
Essa integração acontece no acto de praticar o chá (sadô) como num kata de artes marciais (budô) ou qualquer outra arte imbuída de mente zen...
Na arte do tiro com arco e flecha (kyudô) o objectivo não é acertar no centro do alvo... mas, gradativa e serenamente, fazer a integração do nosso corpo com o arco e a flecha... e daí com o alvo. Quando a flecha finalmente partir irá fundir-se com o alvo, e nós também. É o conceito de Ai-Uchi. Ai poderia traduzir-se literalmente por Amor e Uchi por Casa ou Interior. Ai-Uchi significa fundirmo-nos com o que aparentemente nos é adverso. Só com essa fusão podemos percepcionar e sentir o outro e compreendê-lo... e, nomeadamente, perceber as suas intenções...
O Caminho do Chá é isso... é a compreensão serena do que nos rodeia... e do que nos preenche... àparte  a fantasia competitiva, o vício de nos iludirmos com a vaidade e a arrogância, a falsa modéstia ou a hipocrisia. É um caminho de fusão... mas de serenidade e apreciação da beleza e do conforto das coisas simples.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Caminho - Dô

O homem que não tenha a capacidade de fazer um arranjo com flores ou servir um chá não será capaz de manejar uma espada com o mínimo de mestria.
SO

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Murmúrio do Sentimento

Não sendo a cerimónia do chá (Cha-no-Yu) a plataforma mais adequada para se discutir a bola, dizer mal dos nossos políticos ou nutrir temas ainda mais hilariantes, os neófitos da arte do chá ficam constrangidos e até receosos sobre o que esperar duma "cena" daquelas e com dúvidas de como se comportarem. Essa situação de incerteza fica ainda mais marcada por depararem com algum exotismo oriental, por vezes o uso de kimono's e tatami's. Manter a serenidade é, entretanto, fundamental.
Sen-no-Rikyu, grande arquitecto do Sadô, costumava dizer que nada havia de especial na arte, que consistia apenas em juntar folhas de camellia sinensis com água quase fervente... e humildemente servir a infusão daí resultante aos convidados... O Mestre acrescentava ainda, quase à laia de desculpa, que era um inveterado bruto (que tal tivessem em atenção... pois mais nada era de esperar duma criatura assim)...
Aparentemente não é tão dificil assim. Depois de quebrado o gelo do constrangimento exótico, o neófito, de memória fresca e nutrida, observa o ritual do chá como algo fácil de decorar em poucos dias. E não está completamente errado, está a seguir a configuração natural do seu próprio tempo. Ser jovem é mesmo assim - ter certas faculdades aprimoradas, ser célere, desembaraçado, confiante, memorizador. O tempo, o mesmo tempo, se encarregará de lhe demonstrar que há um tempo para tudo.
A grande mensagem deixada por Sen-no-Rikyu é a do Sentimento (Kokoro, Kimochi). Assim, no contexto da arte, a técnica é bem pouco importante, comparada com o sentimento. Podemos até dizer que sem sentimento não há arte, por muita aparente técnica que exista. Saber disto, ter a noção desta forma de ver a arte, pode ser uma plataforma de alívio para o neófito mergulhado na confusão do Sentir a arte. Sem sentimento, de que vale a técnica?... Poderemos até perguntar, de que vale o chá?
Alguém já perguntou se a arte do chá não poderia materializar-se no consumo de café ou cerveja... em vez de chá. Pode dizer-se, respeitando o espírito da arte, que não seria a bebida ingerida que modificaria o essencial, desde que que com o apropriado sentimento. O chá funciona como um pretexto material para algo que se pretende mais sublime. O praticante da arte do chá gosta da bebida chá mas ela própria não constitui o mais importante da prática. Se não houvesse chá, poderia de facto ritualizar-se com outra qualquer bebida, mesmo com água. Quem oferece chá procura fazê-lo da melhor maneira, transmitindo o melhor de si.
Convencionou-se privilegiar o silêncio, ou pelo menos o desapego momentâneo a conversas mundanas e geradoras de preocupações. Quando se fala, no Cha-no-Yu, é sobre o próprio chá, sobretudo sobre os utensílios, sensações e prazer das coisas simples.

Gasshô

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Significado da Palavra "Oss"

Muitos portugueses praticantes de artes marciais já se habituaram ao uso de "Oss" (おす, Osu) dentro e nas "imediações" dos Dôjo. Porém, verifica-se amiúde que a maior parte não sabe o seu significado. E é natural que não saibam porque na realidade ele não vem expresso nos jisho (dicionários) e não existe também um significado formal e padronizado para essa palavra/expressão derivada do calão militar. Convém entretanto advertir os seus utilizadores, habituados a usar esse termo no ambiente de treino, para não o fazerem no âmbito da sociedade civil, no caso de irem ao Japão ou de receberem cá visitantes japoneses.
No Japão, é normal um aluno ser expulso da sala de aula duma universidade se responder ao professor com "oss" (por vezes diz-se "uss") por tal ser considerado manifesta má-educação. O nosso budoka ficaria perplexo perante tal situação, habituado que está a saudar o mestre com "oss"... rs.
O problemas é que a expressão "oss" só é aceitável (no Japão), e até incentivado o seu uso, em ambientes de dôjo, ginásios desportivos e afins, isto é, em ambientes em que o praticante tem mais que fazer do que estar a tertuliar. Então usa "osu" como cumprimento, como sinal de compreensão da matéria explicada, para pedir para se retirar, etc.. Num ambiente como o universitário contudo tal não é admissível porque o que se espera do aluno é que converse, que use a dialéctica da palavra, e não um acabrunhado ou exaltado "oss". KI O TSUKETE (tenham cuidado!)
Até já se produziu uma lenda (...) que reza que essa expressão deriva do português. Não esquecer que no início dos contactos do Ocidente com o Oriente, depois do desembarque dos portugueses em Tanegashima, os japoneses adoptaram umas centenas largas de vocábulos derivados do português. Actualmente mantêm-se activos algumas dezenas, tendo aumentado entretanto o número de anglicismos. Mas ainda se diz "sarada" (alface), "conpeito" (confeito), "kasutera" (pão-de-ló; claras em castelo), "bitero" (vidro), etc. Diz-se (mt conveniente/) que quando os Nanban (bárbaros do Sul), os portugueses, começaram a desembarcar em Tanegashima, os locais se puseram à cata, a espreitar, a ver o comportamento desses bárbaros.
Quer fosse prá vinhaça, ou pra qualquer outro conforto, os portugueses terão começado a desembarcar barris, baús e artes diversas, sendo tal mister executado em certo ponto por dois homens, mais ou menos dobrados pela carga, e que com o esforço berravam qualquer coisa como "oss". Os Nippon terão ficado a conjecturar entre eles o significado desse ruído, desse dizer. Uns aventaram a hipótese de ser uma saudação, um cumprimento, uma vez que os nanban se curvavam ao dizê-lo... outros argumentavam que devia querer dizer bom dia ou boa noite, de acordo com a posição do Sol... outros ainda achavam antes que o bárbaro mais novo agradecia um conselho do mais velho... e assim sucessivamente. Segundo esta ancestral explicação do significado de "oss", ainda não se terá chegado a um consenso semântico.
Também se usa "oss" em certos rituais dos Yakusa... e é linguagem comum na rua entre os marginais e grupos de crime organizado, estando curiosamente relacionado com respeito, disciplina e obediência.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Kancho Kanazawa - O mito verdadeiro

Com quase 80 anos, esteve mais uma vez entre nós, no Porto, o grande mestre de karate (SKI)  Kancho Hirokazu Kanazawa. Continua a demonstrar-nos que a arte marcial não tem idades, que isso é apenas um mero pormenor físico. Fica-se sem palavras quando se está perante um verdadeiro mestre, com tanto conhecimento acumulado e aparente modéstia. Arigatô O-Sensei!

Kancho Kanazawa, como já tem sido habitual, fez-se acompanhar do seu filho Sensei Nobuaki Kanazawa

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Shotokan... Shotokai?...


Shoto era o pseudónimo que o mestre Gichin Funakoshi usava para assinar os seus poemas. Lieralmente significa "Murmúrio dos Pinheiros".
Kai significa Escola e Kan quer dizer Dôjo (ginásio, edifício).
Mestre Funakoshi começou por chamar ao seu estilo de luta Okinawa-Te (mãos de Okinawa). Depois chamou-lhe Karate - Kara de Karappo (vazio) e Te (mão, mãos), como sendo uma arte marcial de mãos vazias, sem armas.
Com a proliferação de artes marciais (Budô), nomeadamente karate's, o mestre resolveu diferenciar o seu estilo com a referida designação do seu pseudónimo - Shoto, passando então a designar-se por Shotokai - a escola do murmúrio dos pinheiros. Ao sítio, o Dôjo-Sede do seu estilo chamou obviamente Shotokan.
Mais tarde, alunos dissidentes do Shotokai fundaram a Kyokai (conhecida internacionalmente por Shotokan, aproveitando o nome da Sede).
Actualmente, Shotokai e Shotokan continuam a ser irmãos desavindos, de relações cortadas. Os primeiros praticam um karate suave, mais interno e não competitivo. Os segundos um karate mais sólido, contraído e desportivo. Ambos contêm uma fatia da verdade porque, como diz Kancho Kanazawa "há um tempo para tudo".  O mundo não é só líquido como pretendem certos teóricos do Shotokai nem só sólido como advogam certos "atletas" do Shotokan. Complementando o Keiko com tai-chi ou Bô compreende-se melhor a dialéctica Yin-Yang do tai-chi-tsu.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Arte do Chá - O Japão


Mestre Sen-no-Rikyu

Já referimos a origem da planta do chá, do aproveitamento ancestral da essência das suas folhas numa bebida refrescante e tonificante que chegou aos nossos dias, consumida por todo o mundo, de formas diversas e com maior, menor ou praticamente nenhum ritual.
Um dos primeiros países para onde a "mania" de beber chá se exportou foi o Japão. Segundo a história nipónica, o imperador Shomu terá servido chá no seu próprio palácio a 100 monges budistas, numa altura em que a planta ainda não era cultivada no seu império, deduzindo-se que as folhas já processadas tenham vindo da China. Igualmente se refere que as primeiras sementes da camellia sinensis terão sido levadas para o Japão por um monge chamado Dengyo Daishi, depois de ter estudado na China de 803 a 805 dC, tendo-as semeado no terreno do mosteiro e servido 5 anos mais tarde chá ao imperador Saga dessa primeira plantação. Diz-se que o imperador japonês apreciou tanto a bebida que ordenou imediatamente que se cultivasse chá em 5 províncias próximas de Quioto.
Curiosamente, entre o fim do século IX e o século XI, o chá caiu em desgraça e deixou de ser bebido na corte nipónica, por motivo de as relações entre o Japão e a China terem azedado. No entanto, os monges budistas continuaram a consumi-lo para facilitar a vigília durante a prática da meditação. Como não há mal que sempre dure (...) as relações políticas entre os dois países melhoraram, no início do século XII, e Eisai, um monge japonês, teve oportunidade de ir à China e regressar com mais sementes de chá e com o novo hábito de beber chá verde em pó, macha (lê-se  mátchá) (ainda hoje usado na Arte do Chá).
Eisai não se limitou a trazer sementes de chá... introduzindo também no Japão os ensinamentos da seita Zen Rinzai. Assim, o hábito de beber chá e as crenças budistas desenvolveram-se paralelamente, acontecendo que enquanto a ritualidade relacionada com o consumo do chá na China se foi diluindo, desaparendo mesmo, os japoneses fizeram o contrário, transformando os rituais em algo ímpar e sublime.
Daí adveio a Arte do Chá (Sadô, Chadô), materializada na Cerimónia do Chá (Cha-no-Yu), algo de tecnicamente complicado para o Iniciado, que exige um padrão comportamentel e gestual rigoroso, com o objectivo de criar um "intervalo" de Quietude durante o qual (Tori e Uke, em analogia com as artes marciais) o anfitrião e os convidados (quem oferece e quem aceita chá) tentam atingir paz de espírito e harmonia universal.
Antes das incursões guerreiras, os samurai (ou bushi - guerreiros) costumavam reunir-se para adquirir elevação espiritual. Como não sabiam se sobreviveriam à batalha, procuravam participar na cerimónia como se fosse a última vez. Por isso, ainda hoje, o anfitrião se empenha ao máximo para oferecer o melhor ao convidado, procurando tornar o mais agradável possível o encontro.
O monge-zen Murata Shuko (1422-1502) foi quem estabeleceu propriamente a Cerimónia do Chá japonesa. O ritual condensa os elementos fundamentais da filosofia nipónica, baseada em quatro princípios, segundo os ensinamentos de Sen-no-Rikyu (1522-1591). Este mestre, também monge-zen, definiu a estrutura estética do “Chanoyu”, como é conhecida hoje. Considerado o maior mestre do chá e fundador da Urasenke, a mais tradicional escola de Chá do Japão, Sen-no-Rikyu identificou os quatro princípios como sendo:

  1. WA - A Harmonia (com as pessoas e com a natureza);

  2. KEI - O Respeito (pelos outros);

  3. SEI - A Pureza (do coração e do espírito) e

  4. JAKÛ - A Tranquilidade.
Okakura Tenshin (1906) escreveu no seu Cha-no-Hon (Livro do Chá):

"O chá é mais do que uma idealização da forma de beber; é uma religião da arte da vida."
e prossegue:
                        "O ritual do chá é um culto fundamentado na adoração do belo entre os factos sórdidos da existência diária. Transmite pureza e harmonia, o mistério da caridade mútua, o romantismo da ordem social."

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O Samurai e o Tolo


Numa tarde serena, quase se pondo o sol... deslizava entre ilhas uma barcaça com vários passageiros... entre os quais um bushi (samurai) japonês, famoso na arte de desembainhar o sabre (Iaidô). No meio de todos, um jovem descortinou-o, e ansiando por fama dirigiu a palavra ao mestre, rapidamente juntando tons de desafio. Sereno, o bushi resistiu à tola verborreia, à insenta e vaidosa fanfarronice do neófito. Porém, a insistência e zomberia do destemperado rapazola, ajudado por gestos, acabou por perturbar a a população da embarcação, de modos que o samurai acabou por aceitar o desafio.
Porém impôs uma exigência... a de que o duelo não poderia ser alí na barcaça, não apenas por falta de espaço mas também pelo perigo que poderia resultar para a integridade física dos outros passageiros. Sugeriu uma insula alí perto. O atrevido aprendiz de sabre aceitou e, logo que o barco tocou as ervas e limos da pequena ilha saltou para a mesma preparando-se para desembainhar a arma.
O samurai ajudou-o na tarefa com um certo empurraozinho e, logo que o sentiu com os pés em terra impulsionou a embarcação no sentindo contrário, continuando dentro da mesma.
O jovem incauto ficou sozinho na insula, esbracejando, combatendo com o vento, sozinho, como o verdadeiro tolo que era.
E o samurai continuou a viagem, com o sabre embainhado, como é próprio da mestria na arte do Iaidô.