atenuada por espirais de tempo...
esbate-se a quentura das férias pretéritas...
recomeça a falar-se de frio...
a compor a preceito as quebras do silêncio...
o vazio das conversas...
ligar ou não ligar o calor artificial...
e avaliar o custo inerente...
e a parasita e ditadora crise
fabricada pelos donos do mundo.
Momento assim...
mais do que nunca...
se alguma vez houve o nunca
de voltar ao conforto cálido do chá,
de aquilatar essa quentura com a harmonia que ensejamos
e o vapor estilizado nos vidros da janela... pela quase ebulição da água
o fluído elemento onde se agita,
em sílabas de hiragana, o aromático pó do chá...
Gasshô
SO
terça-feira, 30 de outubro de 2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Arte do Chá não é economia
Costumo dizer que praticar a arte do chá consiste em aprender a perder tempo. Contudo não resulta pacífica esta afirmação, não sendo geralmente bem interpretada pela maior parte das pessoas que a ouvem, penso que por habituadas que estão a uma valorização economicista do tempo. O próprio Sensei Rikyu costumava "menorizar" a prática da arte dizendo que o ritual consistia apenas em aquecer água e misturar-lhe, um pouco antes da ebulição, algumas folhas de chá...
A Arte do Chá não é economia (felizmente) nem ciência... e nem sequer tem de ser filosofia, desporto ou arte (no sentido tradicional).
Quando explico o aprender a perder tempo, tenho encontrado amigos que complementam essa ideia com "pois, aprender a perder tempo... ganhando tempo!". Remato a "discussão" perguntando "porquê, essa preocupação permanente de ganhar?!"... Prefiro ver o Chá apenas como Estar.
S.O.
A Arte do Chá não é economia (felizmente) nem ciência... e nem sequer tem de ser filosofia, desporto ou arte (no sentido tradicional).
Quando explico o aprender a perder tempo, tenho encontrado amigos que complementam essa ideia com "pois, aprender a perder tempo... ganhando tempo!". Remato a "discussão" perguntando "porquê, essa preocupação permanente de ganhar?!"... Prefiro ver o Chá apenas como Estar.
S.O.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Chá Gorreana
Visitei recentemente a Gorreana, em S. Miguel, exemplo praticamente único do cultivo da camellia sinensis (planta do chá) em Portugal e pensei em quão diminuta é essa produção, tendo em conta o facto de o nosso país ter sido o introdutor da bebida no continente europeu, via Macau. Certo que essa introdução não se fez através do cultivo (isso muito mais recentemente) mas apenas do fluxo de mercadorias provindas do Oriente.
Sabe-se que a planta não se dá de igual modo em qualquer parte do planeta e que encontrou nos Açores condições minimamente favoráveis ao seu medro. Mesmo assim, sobretudo na conjuntura da globalização e de crise em que se vive, a sua existência em S. Miguel, em moldes quase familiares e semi-mecanizados, veste-se de uma persistência digna de realce... que se conjuga muito apropriadamente com a veneração pelo chá e seus derivados.
Mesmo não se apresentando o Gorreana sob a forma de macha, a degustação introspectiva, meditativa ou mesmo meramente social de infusões das suas apresentações (quatro tipos, entre o verde e o preto) afigura-se-nos interessante e acrescentadora dum maravilhoso toque de gosto português... que não se deve desprezar.
Gasshô.
S.O.
Gasshô.
S.O.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Momentos de crise...
O momento é de objectiva crise. Já não é de agora e não atinge a todos da mesma maneira. Para alguns até poderá ser libertador, descobrirem-se quase de repente desasfixiados da oxidação resultanto do dinheiro a mais... embora a maior parte dos que tinham muito dinheiro o continuem a ter, hiperbolado.
Tenho pra mim que o dinheiro, a riqueza, é como a água... não diminui a quantidade geral mas sim a potável... e o dinheiro, como dizia Luther King, existe a menos no bolso de uns na medida em que existe a mais no bolso de outros.
O problema não é a falta de dinheiro ou riqueza, ou de comida, mas a muito má distribuição. Indiferentes, insensíveis, aos sacrifícios dos pobres e honrados, dos pequenos empresários, o grande e corrupto capital, a besta imunda e desumana, continua a espalhar a discórdia, a fome, a guerra e a insegurança entre as gentes honestas.
Cientes de que pouco podemos fazer para controlar o monstro, resta-nos mantermo-nos fieis aos princípios duma vivência honesta e cívica, a dizer NÃO à besta, sobretudo quando quer argumentar ser representativa pelo selo do nosso voto... e praticar a serenidade com a natureza e o chá.
Quando digo chá, não me refiro a uma bebida ou maneirismo orientados pelo relógio, em salões sociais mais ou menos doirados, com sumptuosidade e pontuação de outras excrescências da burguesia capitalista ou em ânsias de o ser. Digo chá na interioridade de Sen no Rikuy (O-Sensei), da contemplação harmoniosa das coisas simples, usando como suporte a infusão de camélia sinensis, a apreciação da moderada quentura e o seu reflexo dialéctico no nosso corpo construído e personalizado, aferido de acordo com normas, princípios e aceitação cósmica. Valorizaremos muito mais uma brisa a modelar o trajecto do vapor do chá que a pseudo-verdade das crises fabricadas na América e noutros leitos do demónio verdadeiro... Gasshô.
S.O.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Naco de serenidade...
... sempre encontro uma boa dose de serenidade quando mimo as minhas plantas ou cofio o pêlo dos cães, à mingua de outros toques estáticos... isto, e a quase fervura do macha (mátchá) que com sua verdura músguica e ecos de sabi me induz em espirais de espuma e wabi... então, o latejar fortuito da urtiga, o latir debruado no estio da canino, ou mesmo o murmúrio arrumado da cidade, fazem todo o sentido neste meu naco de serenidade conquistado...
S.O.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Confissão a uma flor de Maio
... cada vez me convenço mais... e só n mais por uma espécie de cega fé que os idílios produzem... que já n te lembras de mim...
e o único lenitivo para esse desconforto emotivo, sentimental digamos, é o reconhecimento, racional, de que n me pertences, duplamente n pertences... e de que, de qq modo, nunca teria o direito, puramente falando, de esperar outra coisa de ti que não fosse a produção da tua própria vontade...
tens mais direito a ti própria do que eu... ou qq outra pessoa... mesmo tendo em conta que como tu (teu) tb se entenda o partilhares-te com outrem... com quem o desejares...
... na realidade... se há secura e chuvas pela terra.. pq não igual contraste pelas almas e sentimentos?... de qq modo permaneço com a taça de chá pronta para ti. Shitsurei shimasu...
S.O.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
O Nirvana do Iluminado
Por Vaisali, com 80 anos, Buda andou ainda de porta em porta, esmolando. Depois tomou o caminho de Kusinara, pela orla dum bosque de mangueiras. E chegando à beira dum poço donde uma mulher «intocável» tirava água, pediu-lhe de beber. Recuando espavorida, a mulher exclamou: «Senhor, não vos aproximeis, que sou impura!» Então Buda, imperativo mas com doçura, ordenou:
«Aproxima-te e dá-me de beber. Eu não te perguntei quem tu eras, nem quem era teu pai, nem quem era tua mãe. Pedi-te de beber, porque és minha irmã e eu tenho sede.»
Então pediu que lhe fosse preparado um leito no chão, entre duas árvores. Sobre esse leito de folhagem caíam as flores das salas. E o ribeiro corria no seu leito de calhaus. Como a noite era quente e de luar, alguns aldeões vieram assistir ao Mestre. E o seu espírito cessando de existir, o Perfeito, príncipe dos Sakyas, o Iluminado, entrou no Nirvana.
E junto às portas da cidade, a gente de Kusinara elevou uma pira e sobre ela queimou o seu corpo. (Mahaparinibana-Sutra, texto pali).
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Orientalismo,
Zen
A Anona
Tem mil e quarenta e cinco
caroços
cada um com uma circunferência
à volta
agrupando-se todos
(arrumadinha)
no pequeno útero verde
da casa
luanda, 84 Paula Tavares
caroços
cada um com uma circunferência
à volta
agrupando-se todos
(arrumadinha)
no pequeno útero verde
da casa
luanda, 84 Paula Tavares
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Modo da Proesia
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