terça-feira, 3 de abril de 2012

CADA PARTÍCULA

CADA PARTÍCULA elementar contém todo
o universo,
Cada instante compreende vida única e infinita.

Um a um,
Buda a Buda,
o insondável mistério desta existência,
A nascente das nascentes.

O universo não é vasto, eu não sou ínfimo,
Mas que diabo faço eu aqui?!
Invisível abismo pelo qual
posso, a cada instante, regressar ao céu,
à terra, ao inferno, ou a casa!

O que sou eu?!
Sou aquilo que encontro,
Encontramo-nos agora mesmo - tu és o universo.

Neste último Aqui-Agora, um com o todo,
Vivemos (morrendo)
com o original bater do coração da infinidade.

Hôgen Daidô

domingo, 15 de janeiro de 2012

O estranho desiquilíbrio

Naquele dia o mestre de Judô reservou boa fatia do treino para o exterior, desafiando a classe a o acompanhar numa corrida pelos caminhos tortuosos da localidade. Para além do olhar aparvalhado dos indígenas, pouco habituados a ver uma corrida de pijamas, ou de seminaristas, e até houve quem pensasse que de sandokans esotéricos (...), os próprios alunos se dividiam interiormente, entre o achar a experiência lógica e benfazeja e os que não entendiam a loucura delirante do seu líder.
A certa altura, entre tojos, musgos e pedras, o mestre trpeçou e entrou em franco desiquilíbrio. Aproveitou entretanto a oportunidade para executar um exemplar zenpu-ukemi, evitando arronhões, entorses ou maleitas afins. Reparou entretanto que toda a classe o imitou.
Mais à frente o terreno evidenciou-se lamacento e escorregadio. De tal modo que, qual casca de banana, em certo momento o mestre quase que caiu novamente mas, desta feita, conseguiu, embora com grande dificuldade, manter-se em pé. Ao chegarem ao sossego do dôjo os discipulos achavam-se algo inconformados e perplexos... porque ninguém tinha entendido a 2.ª técnica de desiquilíbrio ensaiada pelo mestre. Terão tentado imitá-lo mas sem sucesso... afinal que técnica rara era aquela?...

(isto passou-se nos arredores de Abrantes, com Mestre Correia)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

a erosão do tempo

em posição semi-fetal... acabrunhado pela erosão do tempo... hesito entre pôr ou não pôr os sapatos em cima da cama... e, perante esta empresa hercúlea, fico imaginando, aquilatando a incomodidade, do Condestável... perante o dilema de combater por nós ou contra nós...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O ladrão e a lua

Quando o mestre à noite regressou ao seu modesto alojamento, surpreendeu um ladrão em busca de alguma coisa com préstimo.
"Como consegues tu procurar de noite aquilo que eu não vejo de dia?!"
Ultrapassado o momento de estupefacção, o larápio escapuliu-se assustado, e sem nada. O mestre caminhou até à janela, encarou a lua brilhante e exclamou: "Pobre ladrão incompetente!... fugiu sem levar a lua!!!"...

Depois da euforia, o retorno ao chá

Confesso que estranho a euforia, o espalhafato mesmo, com que tanta gente festeja o fim de um ano civil e o começo de outro, a passagem-de-ano. O que tradicionalmente faço é repetir o Natal no Ano Novo, o que nunca me parece demais.
Mesmo fruindo as noites junto à lareira, ronronando com os gatos, com as crias e restante família, em amena serenidade, não se consegue evitar ser bulido pela agitação da turbe.
Os tempos que se seguem são sempre de obrigatório retorno à calma, outra calma, quanto mais não seja pela maresia digestiva, a exigir caldos mais mornos e contidos.
E volta-se ao culto do chá. Retoma-se o retempero quotidiano do contraste com afazeres e movimentos repetidos. A temperatura exterior, provada pelo embaciamento dos vidros, convida a momentos-ilhas de reencontro da serenidade sob o bafo do macha. Por outro, lado convém recuperar gestos, arejar a memória, ultrapassar dúvidas... e manter no palato, por longos minutos, o sabor especial do puro chá verde.
  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Uma Vaca no Prado


Um imenso manto verde
É a pele da Terra neste ponto
Transpirando breve névoa
Nos sítios mais deprimidos
Majestosa e serena como um Buda
De tez com pêlo alaranjado
Uma vaca também observa
A calma que corre até ao fundo
Ao fundo, onde se vislumbra o Mar
Fazendo espuma nas rochas
Apesar do corpo todo azulado
Não rumino como a vaca
Mas o ar também respiro

Momentos de Chô-chô-san


I

Como diria JP, sei que jamais hei-de possuir teu corpo em flor... A vida é uma ilusão de ilusões... Mas, que fazer? Talvez o Mestre Zen tenha razão (cada vez acho mais que tem) e nada mais valha a pena do que ficar Sentado-Aqui-Agora... O amor, palavra com que habitualmente se designa essa doença da pele e do sangue, para que serve? Que é mais do que mais uma ilusão?
Passo o tempo, cada vez mais, a ouvir música... a sentir música... Não tenho dúvidas de que também é Maya (ilusão), mas... dá-se-me de uma forma diferente. Não me parece caprichosa, nem mesquinha... ilude-me com toques de divindade... parece renovar, ou pelo menos manter-me, o sangue. Chego a sentir a subtil ilusão de que sou feliz. A música, é a minha droga, o absinto e a morfina com que perfumo de jeito de viver numa pátria sepultada...
Sinto-me de Wenceslau de Moraes irmão. E de Camilo Pessanha, primo, aparte a minha falta de engenho literário. Portugal não merece nenhum deles, principalmente o segundo! Como eles vagueio pelo Oriente, embora do ocidente. E, como o primeiro, embacio o amarelo dos trevos, a vidraça, com a delicadeza do mátchá... Chá verde, tão puro, tão suave, e eu tão bruto... Chá e Wabi, e Sabi, e Amor, autêntico... E se tudo isto não é autêntico, não enxergo mais nada que o seja... A extraordinária beleza das coisas simples, indefinível por palavras... como tudo o que é lindo... ou deveria ser...
Como bolinhas de arroz e bebo vinho de ameixa... e vejo ou sonho com flores de cerejeira (sakura)... e ao fundo, como um deus ou um quadro, o Monte Fuji... Num movimento rápido, mas harmonioso, desembainho o sabre. A luz do Sol, e de todas as coisas, reflecte-se na lâmina do Katana e quase me fere os olhos. Resisto, ou melhor insisto, e, docemente, confirmo a linha do horizonte que divide o Céu da Terra... Durante minutos contemplo a força da não-força, a energia fluir de mim e para mim, os braços tensos e secos, descontraídos, firmes...
Volto a embainhar o sabre... e colho a frágil papoila da minha mente... Este, penso ser o caminho do amor embora, curiosamente, se assemelhe a um trilho escarpado para o abismo... É preciso ter asas para se amar o abismo, mas é essa a via dos seres ávidos de vida. Acho que, com o tempo, essa outra ilusão, compreendo cada vez melhor Mishima. E a tortura pelas rosas... e o chorar à chuva... e o Templo Dourado... e os cavalos em fuga... e o mar da fertilidade... e tantas outras coisas... e quase nada...
Dirijo-me a ti, borboleta... que povoas os meus sonhos de esperança... de coisas quentes e macias... Não atingi a serenidade do eremita, não sei se terreno jamais a conseguirei... não sei se a desejo. De bom grado trocava o avo da esmerada e possível serenidade búdica por um mundano aconchego teu! Sim, é um pedido, e por isso não passo de um miserável egoísta... mas, preferia muito mais dar do que receber!... Tenho os braços tão largos... e é tão oco o espaço que me roça o peito...
Não, não sou perfeito... nem sei se o quero ser! Bastava-me ser na-tu-ral... e o natural implica seiva, musgo, chuva, sol, lua, mar... E implica o abraço, a carícia da pele, o labirinto dos cabelos... Sinto a cama fria e isso diz-me de tudo aquilo que sonho...
O crepitar do fogo na lareira, o vento lá fora... A chuva fria fustigando a janela, e o banho quente, fumegante, confundindo o deslizar de coxas e mãos... e corpos, e tudo o que é intimamente cálido... Um toque de incenso e música morna, para sincronizar no abraço, o bater dos corações... e a lânguida e profunda entrega noite dentro...
Nesta imperfeição perfeita, e incoerente, sonho amar-te toda, todas as moléculas do teu corpo... todos os desenhos do teu espírito. E o vazio em mim é tão grande que não consigo dizer-te mais nada.
Beijo teus olhos e conservo nos lábios, assim o quero, a mais bela paisagem que já viste.

Shiro Ogawa

Lavar a cara na praia


Uma gaivota percorre uma linha paralela à crista da onda... deslisando suavemente como num quadro bucólico mas dinâmico... sem atrito... só vontade e só enleio. Exactamente um palmo abaixo do cume da vaga, desse túnel vidrado e côncavo esverdeado, visto de onde eu vejo...

Até de repente arrepiar caminho, ascendente, voo picado ao céu, escapando milimetricamente ao cuspo salgado do mar...

E assim, sem esforço, desloco serenamente (e quase parvo) os meus olhos, da esquerda para a direita, abarcando no meu peito a brisa salina daquele mar do Cabedelo... e pouso o olhar num navio já construído que espera a partida no estaleiro de Viana.

S.O.