quinta-feira, 17 de maio de 2012

Momentos de crise...

O momento é de objectiva crise. Já não é de agora e não atinge a todos da mesma maneira. Para alguns até poderá ser libertador, descobrirem-se quase de repente desasfixiados da oxidação resultanto do dinheiro a mais... embora a maior parte dos que tinham muito dinheiro o continuem a ter, hiperbolado.
Tenho pra mim que o dinheiro, a riqueza, é como a água... não diminui a quantidade geral mas sim a potável... e o dinheiro, como dizia Luther King, existe a menos no bolso de uns na medida em que existe a mais no bolso de outros.
O problema não é a falta de dinheiro ou riqueza, ou de comida, mas a muito má distribuição. Indiferentes, insensíveis, aos sacrifícios dos pobres e honrados, dos pequenos empresários, o grande e corrupto capital, a besta imunda e desumana, continua a espalhar a discórdia, a fome, a guerra e a insegurança entre as gentes honestas.
Cientes de que pouco podemos fazer para controlar o monstro, resta-nos mantermo-nos fieis aos princípios duma vivência honesta e cívica, a dizer NÃO à besta, sobretudo quando quer argumentar ser representativa pelo selo do nosso voto... e praticar a serenidade com a natureza e o chá.
Quando digo chá, não me refiro a uma bebida ou maneirismo orientados pelo relógio, em salões sociais mais ou menos doirados, com sumptuosidade e pontuação de outras excrescências da burguesia capitalista ou em ânsias de o ser. Digo chá na interioridade de Sen no Rikuy (O-Sensei), da contemplação harmoniosa das coisas simples, usando como suporte a infusão de camélia sinensis, a apreciação da moderada quentura e o seu reflexo dialéctico no nosso corpo construído e personalizado, aferido de acordo com normas, princípios e aceitação cósmica. Valorizaremos muito mais uma brisa a modelar o trajecto do vapor do chá que a pseudo-verdade das crises fabricadas na América e noutros leitos do demónio verdadeiro... Gasshô.
S.O.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Naco de serenidade...


‎... sempre encontro uma boa dose de serenidade quando mimo as minhas plantas ou cofio o pêlo dos cães, à mingua de outros toques estáticos... isto, e a quase fervura do macha (mátchá) que com sua verdura músguica e ecos de sabi me induz em espirais de espuma e wabi... então, o latejar fortuito da urtiga, o latir debruado no estio da canino, ou mesmo o murmúrio arrumado da cidade, fazem todo o sentido neste meu naco de serenidade conquistado...
S.O.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Confissão a uma flor de Maio


... cada vez me convenço mais... e só n mais por uma espécie de cega fé que os idílios produzem... que já n te lembras de mim...
e o único lenitivo para esse desconforto emotivo, sentimental digamos, é o reconhecimento, racional, de que n me pertences, duplamente n pertences... e de que, de qq modo, nunca teria o direito, puramente falando, de esperar outra coisa de ti que não fosse a produção da tua própria vontade...
tens mais direito a ti própria do que eu... ou qq outra pessoa... mesmo tendo em conta que como tu (teu) tb se entenda o partilhares-te com outrem... com quem o desejares...
... na realidade... se há secura e chuvas pela terra.. pq não igual contraste pelas almas e sentimentos?... de qq modo permaneço com a taça de chá pronta para ti. Shitsurei shimasu...
S.O.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Nirvana do Iluminado

Por Vaisali, com 80 anos, Buda andou ainda de porta em porta, esmolando. Depois tomou o caminho de Kusinara, pela orla dum bosque de mangueiras. E chegando à beira dum poço donde uma mulher «intocável» tirava água, pediu-lhe de beber. Recuando espavorida, a mulher exclamou: «Senhor, não vos aproximeis, que sou impura!» Então Buda, imperativo mas com doçura, ordenou:
«Aproxima-te e dá-me de beber. Eu não te perguntei quem tu eras, nem quem era teu pai, nem quem era tua mãe. Pedi-te de beber, porque és minha irmã e eu tenho sede.»
Então pediu que lhe fosse preparado um leito no chão, entre duas árvores. Sobre esse leito de folhagem caíam as flores das salas. E o ribeiro corria no seu leito de calhaus. Como a noite era quente e de luar, alguns aldeões vieram assistir ao Mestre. E o seu espírito cessando de existir, o Perfeito, príncipe dos Sakyas, o Iluminado, entrou no Nirvana.
E junto às portas da cidade, a gente de Kusinara elevou uma pira e sobre ela queimou o seu corpo. (Mahaparinibana-Sutra, texto pali).

A Anona

Tem mil e quarenta e cinco
                              caroços
cada um com uma circunferência
                               à volta
agrupando-se todos
                              (arrumadinha)
no pequeno útero verde
                                    da casa

luanda, 84   Paula Tavares

A Luz Infinita

De onde a onde alcança
esta luz da Verdade?

Se nada a intercepta
esta luz original
propaga-se em todas as direcções, sem limites.

Mas construímos espessas paredes,
impedimos a sua entrada,
fechados em tocas privadas,
alimentando o vício do ego
a palavra «Buda», uma mácula em não-mente.

Ao sermos apenas não-mente
no verdadeiro vazio,
a vida da infinita luz da Verdade
a inocente natureza da não-mente, não-ego,
amor sem limites da sinfonia-ecocósmica
cumprem-se naturalmente Aqui-Agora
neste encontro.

É isto.

Hôgen Daidô

terça-feira, 3 de abril de 2012

CADA PARTÍCULA

CADA PARTÍCULA elementar contém todo
o universo,
Cada instante compreende vida única e infinita.

Um a um,
Buda a Buda,
o insondável mistério desta existência,
A nascente das nascentes.

O universo não é vasto, eu não sou ínfimo,
Mas que diabo faço eu aqui?!
Invisível abismo pelo qual
posso, a cada instante, regressar ao céu,
à terra, ao inferno, ou a casa!

O que sou eu?!
Sou aquilo que encontro,
Encontramo-nos agora mesmo - tu és o universo.

Neste último Aqui-Agora, um com o todo,
Vivemos (morrendo)
com o original bater do coração da infinidade.

Hôgen Daidô

domingo, 15 de janeiro de 2012

O estranho desiquilíbrio

Naquele dia o mestre de Judô reservou boa fatia do treino para o exterior, desafiando a classe a o acompanhar numa corrida pelos caminhos tortuosos da localidade. Para além do olhar aparvalhado dos indígenas, pouco habituados a ver uma corrida de pijamas, ou de seminaristas, e até houve quem pensasse que de sandokans esotéricos (...), os próprios alunos se dividiam interiormente, entre o achar a experiência lógica e benfazeja e os que não entendiam a loucura delirante do seu líder.
A certa altura, entre tojos, musgos e pedras, o mestre trpeçou e entrou em franco desiquilíbrio. Aproveitou entretanto a oportunidade para executar um exemplar zenpu-ukemi, evitando arronhões, entorses ou maleitas afins. Reparou entretanto que toda a classe o imitou.
Mais à frente o terreno evidenciou-se lamacento e escorregadio. De tal modo que, qual casca de banana, em certo momento o mestre quase que caiu novamente mas, desta feita, conseguiu, embora com grande dificuldade, manter-se em pé. Ao chegarem ao sossego do dôjo os discipulos achavam-se algo inconformados e perplexos... porque ninguém tinha entendido a 2.ª técnica de desiquilíbrio ensaiada pelo mestre. Terão tentado imitá-lo mas sem sucesso... afinal que técnica rara era aquela?...

(isto passou-se nos arredores de Abrantes, com Mestre Correia)