sábado, 16 de abril de 2011

A Sílaba Yu... e o ritual.

Após depositar na chawan duas porções de macha, mais precisamente uma porção do chakaku ("colher" de bambu) cheio mais outra porção com cerca de metade do mesmo chá em pó... o executante deve desenhar nesse pó (depositado no fundo da chávena) algo semelhante à sílaba YU, em hiragana. Só depois deve verter água bem quente sobre o mesmo, o quanto baste para um convidado, e seguidamente bater a mistura com o chasen. O último movimento com o batedor, mergulhado ainda na bebida, deve equivaler à silaba hiragana NO (nô).

sábado, 2 de abril de 2011

A Renovação do Chá - Ai-Uchi

Como utensílios fundamentais da cerimónia do chá (cha-no-yu) temos a chávena (chawan) e o batedor (chasen)... o barro e o bambu... em peças únicas, que tacteamos, sentimos, manueamos... e nos habituamos a integrar no nosso ser.
Essa integração acontece no acto de praticar o chá (sadô) como num kata de artes marciais (budô) ou qualquer outra arte imbuída de mente zen...
Na arte do tiro com arco e flecha (kyudô) o objectivo não é acertar no centro do alvo... mas, gradativa e serenamente, fazer a integração do nosso corpo com o arco e a flecha... e daí com o alvo. Quando a flecha finalmente partir irá fundir-se com o alvo, e nós também. É o conceito de Ai-Uchi. Ai poderia traduzir-se literalmente por Amor e Uchi por Casa ou Interior. Ai-Uchi significa fundirmo-nos com o que aparentemente nos é adverso. Só com essa fusão podemos percepcionar e sentir o outro e compreendê-lo... e, nomeadamente, perceber as suas intenções...
O Caminho do Chá é isso... é a compreensão serena do que nos rodeia... e do que nos preenche... àparte  a fantasia competitiva, o vício de nos iludirmos com a vaidade e a arrogância, a falsa modéstia ou a hipocrisia. É um caminho de fusão... mas de serenidade e apreciação da beleza e do conforto das coisas simples.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Caminho - Dô

O homem que não tenha a capacidade de fazer um arranjo com flores ou servir um chá não será capaz de manejar uma espada com o mínimo de mestria.
SO

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Terra Pura de Alan Spence

Segundo a editora (Presença), A Terra Pura é um romance absorvente onde dois mundos distantes e antagónicos, Oriente e Ocidente, se encontram na figura do protagonista, criando uma história arrebatadora. O livro inicia-se assim:

1
O PORTAL SEM PORTA
Nagasáqui, 1945

    Se Tomisaburo não tivesse visto com os seus próprios olhos, não teria acreditado. Aquilo era o terrível fim de tudo, a aniquilação, o nada. Uma única explosão devastara metade da cidade, destruíra-a num instante, reduzíra-a a escombros e pó. A casa dele ficava em Minami Yamate, a colina a sul, sobranceira à baía. Era longe do epicentro, e encontrava-se protegida a sotavento. Esse simples facto salvara-a da destruição.
    Ele estava sentado à secretária, contemplando o pinheiro lá fora, no jardim, a árvore que dera o nome à casa, Ipponmatsu, Pinheiro Solitário. A árvore era anterior à casa, já lá se encontrava antes de o pai dele ter escolhido o local e lançado as fundações. Fora a primeira casa ocidental da colina, construída de pedra. Se fosse feita de madeira e papel, ter-se-ia desfeito em cinzas naquele vento escaldante?
    Na semana anterior, tinha aberto o Sutra do Diamante e passado as páginas, à procura de um significado. «Despertar a mente sem a fixar em parte alguma.» O poeta Basho escrevera: «Aprende acerca do pinheiro com o pinheiro.» Aprende como lamentar. Actualmente tudo era uma meditação sobre transitoriedade, efemeridade. Ele era um velho. Fora uma crueldade da Kenpeitai, a polícia não tão secreta como isso, interrogá-lo. Devido aos seus antecedentes tinham pensado que ele era um espião. Era o seu destino, o seu karma, ser apanhado entre dois mundos. Nem uma coisa nem outra. Nem carne nem peixe. Agora iam chegar os americanos. Tinham sido eles a forjar aquele horror. Não havia esperança.
    O clarão iluminara o céu, uma luz branca, momentaneamente mais clara que ao meio-dia. Ele fechara os olhos, com a imagem do pinheiro a queimar-lhe a retina. Depois o ruído enchera os céus, imenso e atroador, tão forte que doía. Ele tapava os ouvidos enquanto a casa inteira estremecia e todas as janelas se despedaçavam e o vento seco e quente entrava de roldão, devastando tudo.
    Sem pensar, um homem num sonho de si próprio, levantara-se sacudindo da roupa fragmentos e partículas de vidro. Sem pensar, escovara a manga com a mão, e sentira a ferroada enquanto o sangue surgia em cada minúsculo corte dos seus dedos, da sua palma aberta. Sem pensar, dirigira-se para fora aos tropeções, tentando assimilar a enormidade do que acontecera. De repente tudo ficara escuro, como numa tarde de Inverno, mas o vento que soprava continuava quente. O fumo de um edifício incendiado dissipou-se e ele olhou na direcção da cidade, mas esta desaparecera. Tudo o que havia para norte fora obliterado, todos os pontos de referência arrasados. Nada que fosse vertical permanecia de pé, excepto aqui e além uma chaminé de fábrica, o esqueleto da estrutura de um armazém. Por toda a parte deflagravam pequenos incêndios, juntando o seu fumo ao manto cinzento que cobria tudo.
...
Espero ter proporcionado uma ideia da obra, interessante sobretudo para os amantes da cultura nipónica e da literatura em geral. Bem traduzido, por Manuela Madureira, e em português autêntico, ainda não contaminado pelo àcôrdjinho.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A Arte do Chá - A Chawan


Chawan é a chávena, peça de porcelana em que se serve o chá, após devidamente batido pelo executante. Constitui um utensílio muito importante no Cha-no-Yu e é passível de constituir o centro de alguma conversa que se estabeleça entre os participantes. As chávenas podem chegar a ser caríssimas, se originárias de um grande mestre oleiro ou com muita tradição ou história. De qualquer modo é sempre um objecto muito querido pelos amantes desta arte. A etiqueta do ritual tem esse princípio em consideração ao estabelecer que os participantes numa cerimónia de chá não devem usar aneis nem quaiquer outros artefactos que possam ferir (riscar) a superfície da chawan, sob pena de estarem a provocar constrangimento e apreensão a quem lhes oferece chá.
Quem aceita o chá deve agradecer esse gesto amistoso, segurando sempre a chávena com as duas mãos, a esquerda como base de apoio e a direita para a dirigir e rodar conforme o estabelecido. É de bom tom, após tomar o chá e sentir a sua quentura, "perder" algum tempo observando a chawan... as suas faces, a sua parte frontal, as evidências do artesão, a sua delicadeza e beleza... e disso fazer reparo ao anfitrião, duma forma serena e positiva... e até questionar sobre a sua origem... sempre num tom que não se sobreponha ao do ambiente, nem impeça a percepção do murmúrio da água, da chuva ou do vento... lá fora e cá dentro.